Prefere estar certo ou deslumbrado?

Prefere estar certo ou deslumbrado?

Mudei de vida porque queria ser feliz. Não que eu fosse infeliz mas porque a vida de uma jovem executiva de sucesso me parecia pouco. A vida não podia ser só aquilo.

Iniciei uma viagem com o propósito de encontrar a felicidade. Uma felicidade genuína, independente de qualquer estereotipo ou crença social. Uma felicidade desligada daquilo que eu achava que os outros esperavam de mim mas nascida do propósito que eu iria encontrar para a minha vida.

Passaram anos e anos e anos. Cheguei aqui, agora e hoje à conclusão que andei à procura da felicidade da forma menos fácil de a encontrar pensando eu que era a certa. Procurei-a obsessivamente porque queria provar que eu tinha razão. Queria provar a mim própria e a todos os que ficaram a ver-me com a certeza de que eu me ia estatelar no chão, de que o caminho que eu tinha escolhido percorrer era o único possível. De que largar um dos melhores empregos do mundo e trocá-lo por uma vida de incerteza profissional, desapegada da norma me ia conceder o trunfo da verdade.

Procurei tanto a certeza do meu caminho que por vezes me esqueci de apreciar cada passo. Imaginei tantas vezes hastear a minha felicidade conquistada como uma bandeira vitoriosa e dizer ao mundo inteiro: vês como eu sabia que era por aqui? – e esse dia não chegou.

Hoje, aqui, agora concluo que esta minha busca não estava afinal totalmente certa. Faltava um pequeno detalhe. Era preciso deixar cair esta necessidade de provar seja lá o que for ao mundo, ironicamente a minha motivação principal. Era inevitável perder-me nos braços da ironia do destino. Largar a corda do controle, dos mapas de estrada, das opções baseadas em teorias externas a mim e escolher apenas maravilhar-me. Abraçar a vida da mesma forma que uma criança o faz com a certeza de que o que tenho agora, o que escolho agora, o que sou agora é tudo o que me basta e é onde estou a colocar o melhor de mim.

Por isso:

Não quero mais comer morangos porque são frutos vermelhos e anti-oxidantes e fazem bem ao sangue. Prefiro comê-los porque são suculentos, porque gosto de sentir o seu sumo ligeiramente ácido, doce e fresco a invadir-me a boca e deixar-me maravilhar por esta delicia que cresce em pequenas plantas rentes ao chão.

Não quero meditar porque faz bem ao stress ou porque me ajuda a controlar a ansiedade. Quero meditar pelo prazer do silêncio, pelo deslumbre da minha companhia.

Não quero ensinar porque preciso de mostrar aos outros aquilo que sei, provar-lhes a certeza das minhas escolhas. Quero antes partilhar aquilo que, de tão grande não cabe em mim e sentir a alegria de neste processo acabar também por aprender em comunhão.

Não quero esconder as minhas imperfeições com medo de que as minhas fragilidades se revelem mas quero abraçá-las da mesma forma que uma criança abraça o momento em que pisa um charco de lama pelo prazer dos salpicos porque esse prazer é tão precioso que vale a pena arriscar o ralhete dos pais.

Quero deslumbrar-me a cada momento. Quero sentir o pulsar de cada ser em uníssono com o meu próprio ritmo. Quero ouvir a voz do Universo, do divino, do Eu Superior e saber que é essa entidade que me fala quando um destes dias ao acaso eu abro uma Bíblia esquecida cá em casa e a frase onde os meus olhos pousam diz-me “Anda, segue-me” (Mateus 4:19).

E, num acto de rebeldia, deixo para trás a vontade de estar certa e saio para o mundo pronta a seguir, maravilhada!

E tu? Preferes estar certo ou deixar-te deslumbrar?

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13 Responses to Prefere estar certo ou deslumbrado?

  1. Maria Elisabete de Pinho Frias Figueiredo says:

    Sílvia,

    Não me canso de dizer que gosto muito de ti. És uma Mulher muito consciente.

    Beijinhos

    Elisabete

    • silvia says:

      O sentimento é mútuo, querida Elisabete.
      És um exemplo de Mulher para mim :)
      Beijinho

  2. Sofia Romão says:

    Palavras que nos enchem a alma, de tão sábias! <3

  3. Antonia Pedrao says:

    Sílvia,

    É sempre tão clara e transparente nas suas análises.De facto, a vida é um desenho que se reformula diariamente quando se tem a sua consciência e se tira partido dela.

    Obrigada pela partilha de mais uma tomada de consciência. As suas partilhas ajudam-me sempre.

    Continue a deixar-se deslumbrar e a “pintar” de forma colorida, com as cores do seu coração,o seu prepósito de vida.

    Um abraço no seu coração.

  4. lurdes vala says:

    Simplesmente amei!❤

  5. Aurora says:

    Ja estava a precisar de uma das tuas reflexoes!
    Nao te conheço, ….mas gosto muito de ti e os teus pensamentos fazem me mt sentido. Es uma pessoa mt bonita! Ha tempo q ando para te dizer isto…
    Bjs
    Aurora

    • silvia says:

      Aurora,

      Fizeste-me corar! Tão bonito o que escreves.

      Obrigada, muito obrigada.

      Pois mesmo não te conhecendo também gosto de ti :)

      Um beijinho

  6. Catarina Pardal says:

    Grata… todas as palavras seriam pequeninas para poder exprimir o quanto gostei de ler este post … por isso simplesmente agradeço … não só a ti mas também a mim que me permiti estar sentada no sofá, a ler-te relaxadamente … e é tão bom…

    • silvia says:

      Oh Catarina,

      Muito obrigada! Fico tão feliz de saber que o que escrevo faz sentido para como de partilhares o teu momento de relaxamento com a minha escrita.

      Tão bom!

      Um beijinho

  7. ascenção lucia sebastião says:

    Olá Sílvia

    Como sempre gosto do que escreveu, é uma reflexão cheio de vida, do desejo de ser feliz, espero que encontre o seu caminho para a
    felicidade.
    Esta reflexão veio ao meu encontro, eu também deixei para trás aquilo que eu achava certo, fazer Chi kung como se fosse cura para minha ansiedade vivi tal maneira preocupada porque tinha de fazer Chi Kung todos os dias e achei que a meditação também era um caminho fazia um esforço para estar sentada acabava por ficar mais ansiosa porque achava que não estava a conseguir o que esta
    certo. Alguém me falou na meditação plena então comprei um livro que tinha um CD como eu não sou de rotinas não era fácil de me sentar todos os dia para o ouvir. Alguém falou de eu tirar um curso, mas é tão caro e comecei a ficar ansiosa porque não tinha dinheiro para isso. Um dia os meus olhos caíram sobre um livro pequeno livro de um Padre Jesuita Paulo d,Dors «A biografia do silêncio» é um ensaio sobre meditação que me tem ajudado a encontrar o meu caminho, hoje em dia deixei-me de me preocupar com o fazer Chi kung todos os dias e dou comigo faze-lo, dou comigo a fazer um pouco de meditação, comecei a olhar para dentro de mim resumindo deixei de me preocupar com o «fazer» deixei de estar tão ansiosa e aceitar as coisas como elas aparecem no meu caminho.
    Obrigada Silvia porque ao ler a sua reflexão acho que estou no caminho certo, e desejo muito que a Silvia seja feliz.
    Beijinho grande
    Ascenção

    • silvia says:

      Obrigada pelas suas sábias palavras, Ascenção. É isso mesmo: cada um de nós vai procurando o seu próprio ritmo. O que funciona para um pode não funcionar para outro.
      Que bom saber que tem feito tão boas descobertas!

      Um beijinho grande
      Silvia

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