O que fazer com as imperfeições?

O que fazer com as imperfeições?

O advento começou no dia 1 de Dezembro. Para os católicos é um tempo de preparar o coração para receber Jesus que vai nascer. Simbolicamente também significa abrirmos o coração, reflectirmos sobre as nossas imperfeições e aproveitar este tempo de recolhimento para as transformar em fertilizante para o nosso futuro. Desta forma, quando a luz regressar na Primavera, o nosso terreno interior está enriquecido para florescer.

Uma das minhas grandes imperfeições é a arrogância. Embora nesta altura do meu percurso já tenha conseguido identificar a sua origem ainda não fui capaz de a transformar totalmente. É uma arrogância que se disfarça na critica e julgamentos alheios, baseada na crença de que sou melhor ou sei mais.

Reparo que um dos meus alvos deste meu sentido demasiado crítico são as pessoas que pedem dinheiro na rua. Critico-as porque muitas delas as vejo há décadas a percorrerem as carruagens do metro, critico-as porque pedem para alimentarem vícios e adições, critico-as porque as julgo demasiado passivas e preguiçosas para trabalharem, critico-as por me deixarem uma sensação de tristeza e desconforto quando sou confrontada com o seu sofrimento.

Abraçando a proposta de preparação do meu terreno interior que o advento traz, este ano é tempo de fazer algo desta arrogância que me envergonha. Assumindo convosco este lado menos bonito da minha personalidade, partilho o exercício que comecei a praticar: todos os dias dar a maior moeda que tenho na carteira à primeira pessoa que me pedir dinheiro na rua. Seja o cego que há mais de dez anos que percorre o metro a bater com a sua cana no chão, o toxicodependente que arruma carros na minha rua, a senhora de leste que se senta no Saldanha, numa cantilena monocórdica, os músicos que alegram as ruas da baixa, os escuteiros que vendem rifas ou os artistas que animam os condutores que esperam o sinal verde na Praça de Espanha.

Ainda só vou no terceiro dia (escrevo este texto no dia 3 de Dezembro) e eis as minhas primeiras conclusões: antes de ontem dei a minha moeda de dois euros a um grupo de quatro homens de leste que tocavam concertina no metro. Quando os vi entrar e soube que seriam eles que receberiam a minha primeira moeda, em vez de ficar aborrecida porque as suas cantigas estavam a interferir com o sossego dos meus pensamentos, escolhi ouvi-los com atenção. Surpreendeu-me porque tocavam mesmo bem uma música alegre e cheia de ritmo. Dei por mim a abanar o pé e a sentir-me grata pela boa disposição da sua actuação. Passei por eles, dei-lhes a moeda e um quentinho transbordou do centro do meu peito.

Ontem de manhã, a caminho do banco cruzei-me com um homem sentado no chão de aspecto andrajoso. Quando passei por ele pensei “Este não! Claramente que é para alimentar algum vício.” Parei de repente, dei dois passos atrás e dei-lhe uma moeda de 50 cêntimos, a única que tinha na carteira. O homem sentado encolhido debaixo de uma manta encardida olhou para mim com um dos maiores sorrisos que recebi ultimamente.

Hoje encontrei um grupo de escuteiros a vender rifas para financiar uma acção de solidariedade social. Foi com satisfação que lhes comprei duas. Não me saiu nenhum prémio mas ganhei uma pontinha de orgulho quando ouvi alguém dizer que era bom ver jovens com boas iniciativas de voluntariado e devia haver mais gente a incentivá-los.

Julgar é fácil. Difícil é admitir o que vem antes da formulação do julgamento. Perceber de onde vem esta tendência de me achar melhor que os outros. Para tal tenho reflectido sobre duas perguntas:

  1. Que característica da minha personalidade eu estou a tentar camuflar com este meu comportamento? – No meu caso cheguei à conclusão que é esta minha tendência para a arrogância
  2. Consigo encontrar o evento ou eventos na minha vida que deram origem ao desenvolvimento desta minha característica menos bonita e me fazem replicá-la constantemente nos meus dias? Com este exercício exploratório é mais fácil iniciar um processo de auto-conhecimento e perdão pelas minhas imperfeições.

Se tudo isto parece difícil não será com certeza mais difícil do que tomar a decisão de sair para a rua e pedir dinheiro aos estranhos que passam. Independentemente da motivação que cada um leva para o fazer, certamente que ali não estariam se tivessem conseguido vislumbrar outra escolha. Ninguém é mendigo por vocação.

Por isso, este mês dou moedas a quem me pede. Em troca, ganho uma nova relação com as minhas imperfeições, perdoo-me e aqueço o coração. Mais uma vez: simplifico!

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