Como nasce um minimalista

Como nasce um minimalista

Após um episódio sucessivo de sintomas avassaladores que me invadiram há quase 10 anos atrás, procurei ajuda médica. Não foi preciso uma grande investigação para chegar ao diagnóstico: síndrome de ansiedade generalizada (SAG) e fobia social. Na prática isto traduzia-se por um terror de exposição pública e um constante estado de preocupação exacerbada.

Tudo isto tinha um peso enorme na minha vida: havia dias em que simplesmente não conseguia sair de casa. O facto de me imaginar no meio da rua rodeada de estranhos apavorava-me. Recusava convites para coisas que até adoraria fazer mas sentia-me incapaz. Preferia perder oportunidades a ter de encetar uma conversa com alguém. O tema principal da minha actividade mental era imaginar os piores cenários que me poderiam acontecer e elaborar estratégias de fuga. Durante alguns anos fui prisioneira desta patologia. No início, disfarçada de sintomas suaves e mais tarde, paralisando-me. Altura em que já não conseguia disfarçar a minha fraqueza e nada mais me restou do que pedir ajuda.

Entre as várias opções de tratamento que me foram apresentadas na altura, escolhi a via mais natural possível: comecei a fazer sessões regulares de psicoterapia e comecei a meditar. Foi assim que a meditação entrou na minha vida.

Uma das terapeutas que me acompanhou disse-me uma frase que vive até hoje na minha mente: “a síndrome de ansiedade generalizada é como abrir uma porta onde antes havia apenas um muro. Podes até conseguir fechá-la à chave mas nunca mais vai voltar a ser só um muro. Tens de te manter vigilante.”

Se na altura achava que talvez fosse uma visão algo pessimista, hoje compreendo bem a frase. Posso dizer que curei a SAG mas sei que ela ainda vive em mim. Há que me manter atenta e prevenir-me. Mais uma vez a meditação é uma ferramenta preciosa. Mas há outra forma de vida que fui vindo a descobrir e que tem sido fundamental no meu processo de manutenção do equilíbrio.

Tudo começou há uns sete anos atrás quando resolvi fazer a minha primeira viagem sozinha depois de ter ultrapassado esta grande crise. Fiz a mochila e, sem pensar muito (que a actividade mental é um dos maiores inimigos da SAG) pus-me ao caminho. Nos dez dias seguintes propus-me a fazer o Caminho de Santiago. No primeiro dia, pouco antes de dar o primeiro passo, senti a minha ansiedade a querer despontar. A fazer o que durante tantos anos tentou fazer comigo (e que em tantos casos foi bem sucedida): boicotar os meus planos. Nesse momento, a frase que a terapeuta tinha partilhado comigo começava a fazer sentido. Percebi como era fundamental manter uma atenção constante ao meu mundo interior. Era a única forma de o preservar. Percebi também que a partir dali a meditação não seria suficiente. Descomplicar a mente era fundamental mas tinha de descomplicar ainda mais. Consciente dos meus anseios, escolhi dar o primeiro passo e completar os 5 dias de caminhada. No final tinha descoberto duas coisas importantes:

  1.  Era mesmo capaz de enfrentar a minha ansiedade e levar a minha vontade avante
  2. A melhor ferramenta para viver com SAG é o cultivo constante de uma vida simples. Fazer o caminho de Santiago tinha implicado uma boa dose de humildade e outra tanta de despojamento. Não havia espaço nem tempo para vaidades, para desperdício de tempo ou para me preocupar com o que os outros pensariam sobre minhas escolhas. Tinha de caminhar. Tinha de comer o que houvesse generosamente disponível em cada albergue. Tinha de levar o menos peso possível para me manter confortável.

No caminho de Santiago descobri o que agora chamo de minimalismo. Ou uma forma simplificada de viver. Deixar para trás o que não me faz falta, o que me pesa nas costas ou me atrasa o passo é a melhor forma de liberdade. Nessa liberdade ganho a certeza de que tudo está bem tal como está, que no final do dia vou ter sempre uma refeição quente à minha espera.

Desde essa altura que a minha vida é cada vez mais simples. Uma vida minimalista é terreno fértil para a felicidade. E no muro onde cresce a felicidade há cada vez menos espaço para deixar que a porta que aí se instalou se volte a abrir. Aos poucos vai ficando esquecida debaixo da explosão de folhas verdes.

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