Até Onde Vale a Pena Largar

Até Onde Vale a Pena Largar

….ou porque é que não me chateio se os condutores não param nas passadeiras.

Estou na paragem do autocarro quando à frente na estrada um homem começa a gritar impropérios. Um condutor não parou na passadeira onde ele aguardava para atravessar a estrada. Ofendido, recorreu ao seu vocabulário mais ofensivo e não se fez rogado. À frente o condutor acaba por parar. Não para o deixar passar mas para lhe aplicar um “correctivo”.

Enquanto eu pego no telemóvel e me preparo para chamar a polícia (a solução que me pareceu mais adequada para evitar que a situação tomasse proporções em que ambos se poderiam magoar à séria) a cena acaba por se resolver por ela mesma. O condutor cai em si, vira as costas, regressa para o carro e vai-se embora.

As minhas movimentações em Lisboa são normalmente feitas a pé ou de transportes públicos. São inúmeras as vezes que ao aproximar-me de uma passadeira, os condutores não param. A minha pergunta é: porque é que isso não me tira do sério?

A resposta surge intuitivamente: porque não é importante.

Um dos princípios do minimalismo defende que se algo não nos trás felicidade ou alguma vantagem real, então não nos faz falta. Podemos largar.

Simplificar a vida, mesmo quando se começa por simplificar a relação com os bens materiais, leva de forma mais ou menos consciente a uma simplificação das emoções. Acrescentando a isto a prática regular de meditação, desenvolve-se um conhecimento profundo de si. Consequência: percebe-se que é possível selecionar as emoções às quais dar prioridade e largar aquelas que causam mal estar. Por outras palavras, fica claro que há raivas, zangas ou tristezas que não nos trazem nem felicidade nem qualquer outro tipo de benefício. Pelo contrário, deixam uma sensação desagradável às vezes durante bastante tempo. Então para quê investir nelas?

Assim, sempre que um condutor não pára numa passadeira para me dar passagem, não me zango. Muitas vezes nem reparo. Antes, quando ainda estava numa fase inicial do processo de simplificação da minha organização mental usava alguns truques. Imaginava que o condutor estava cheio de pressa para resolver uma emergência familiar. Ou que não me tinha visto. Imaginando estas situações, a compaixão surgia e a tolerância sobrepunha-se à raiva ou à zanga.

Com o simples filtrar das emoções, largando aquelas que são totalmente inúteis, os meus dias tornaram-se significativamente mais simples. E mais felizes!

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