Alívio de Alma

Alívio de Alma

As viagens de metro, sobretudo em hora de ponta, impressionam-me pela falta de conexão humana de tão conectada que está às pequenas caixinhas luminosas onde fazem deslizar continua e vigorosamente as pontas dos dedos. Por causa desta atenção obsessiva grávidas ficam de pé ignoradas por quem não levanta os olhos desse pequeno mundo, velhos desequilibram-se nos desafios das travagens porque estão para lá do alcance da vista encurtada no pequeno rectângulo de quem se senta em lugares prioritários e crianças de colo agarram-se aos pescoços paternais esperando encontrar segurança na sua vulnerabilidade de queda por viajarem de pé, sem hipótese de lhes ser disponibilizado um lugar porque a vida virtual requer 100 da atenção de quem viaja sentado.

As consequências não ficam por aqui: nas plataformas que unem saídas, entradas e mudanças de linha é frequente pessoas esbarrarem umas nas outras porque nem mesmo a caminhar se abdica de manter o mundo confinado à tal caixa luminosa que brilha na palma da mão. Às vezes entre encontrões (alguns verdadeiramente épicos) de quem não me vê porque não brilho quase perco a esperança de me sentir acompanhada no mundo. Cresce uma sensação de solidão tal que me apetece gritar alto e bom som para acordar toda a gente deste torpor de mundos irreais e inconsequentes que nos tornam cada vez mais indiferentes ao que realmente importa.

Em vez disso, opto frequentemente por olhar em volta, observando para lá de quem não me vê alimentando a esperança que haja mais alguém além de mim que também não entende que a realidade em que nos movemos, o chão que pisamos e as pessoas com quem nos cruzamos passaram a ser detalhes muito secundários.

Sempre que o faço, no limite de perder a esperança nos tempos actuais, acabo por descobrir um olhar semelhante ao meu reflectindo a mesma descrença e a mesma esperança de que a humanidade não seja apenas isto. É frequente nestes olhares cruzados haver uma identificação mútua que não precisa de palavras para que ambos – embora desconhecidos – saibamos exactamente o que o outro está a pensar. Estes olhares cruzados de passagem nos caminhos apressados dos dias, não se desvanecem sem que um sorriso seja trocado. Uma cumplicidade entre estranhos que não dura nem um segundo mas é suficiente para que eu continue a acreditar na harmonia do mundo.

Sigo então em frente de olhos postos no que me rodeia, consciente que me movo entre outros como eu, que para todos nós o tempo passa e que se não for agora, nunca mais vamos conseguir agarrar este momento, o momento presente.

Andamos sozinhos há demasiado tempo. E sozinhos, desligados daqueles que partilham apenas segundos da nossa vida quando se cruzam conosco a entrar ou a sair do metro, dificilmente conseguiremos ser melhores. Nem que seja apenas um bocadinho melhores que aqueles que tanto procuramos mostrar ser, guiados pela ponta do dedo que desliza incessantemente no écran luminoso do ironicamente chamado “smartphone”.

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