360º pode não ser um círculo

360º pode não ser um círculo

“É provável que tenhas pelo menos 85 anos de vida nesta terra. Não passes 65 anos deles a pagar por um estilo de vida que é insustentável.” – Cait Flanders

Tinha uma casa com piscina num condomínio privado. Conduzia um carro tão grande que precisava de uma altura extra para ver e ser vista no banco do condutor. Fazia férias em locais exóticos, em que era preciso passar por um ou dois dias de jetlag até começar a aproveitar o momento. Tinha o armário cheio de roupa, alguma que nem nunca chegou a perder a etiqueta. Era viciada em sapatos e a maioria deles mal saía do armário. Jantava mais vezes fora do que em casa.

Até que um dia a minha profissão deixou de me completar. A profissão que no início me apaixonava passou a ser a fonte de frustração, angústia e tristeza. A mesma profissão que me exigia quase 24 horas por dia de trabalho mas que era a única que tinha que tornava possível sustentar o meu estilo de vida.

O momento em que percebi que se não queria estar presa a uma profissão para pagar contas, tinha de alterar a forma de viver foi o meu primeiro momento minimalista. Na altura provavelmente chamei-lhe outra coisa: cansaço? Esgotamento? Necessidade de me redescobrir? Hoje sei que foi graças à minha escolha de começar a diferenciar o supérfluo do essencial que me foi permitido optar por uma mudança substancial de vida.

Abdiquei da casa com piscina, do carro, do excesso de roupa, da comida fora de casa tantas vezes pouco saudável, dos sapatos, das viagens sem alma. E depois percebi que podia abdicar de um ordenado que muitos classificariam como “simpático” e experimentar descobrir os dias vividos num outro ritmo. Foi assim que passei mais de 10 anos. Focada no essencial, num processo único de crescimento pessoal a aprender e a partilhar tudo o que me chegava. Cada vez mais simples, cada vez mais consciente de que a minha felicidade não está em nada fora de mim. Cada vez mais forte, cada vez mais motivada a escolher qualidade e não quantidade.

Com a certeza cada vez mais sólida de que quanto mais simplifico mais feliz me sinto.

Mais de 10 anos depois, enfrento de novo a mudança. Ou melhor, o regresso. Regresso ao mundo profissional do qual me afastei durante mais de uma década. Um regresso que não é um recomeço. Mesmo sendo a mesma paixão reacendida, eu não sou a mesma pessoa.

A diferença? Hoje vivo motivada pelo prazer de sentir a vida a pulsar em mim e não por um nome pomposo no cartão de visita. Procuro experiências e não recompensas. Ambiciono felicidade acima de qualquer outro valor que me seja proposto. Escolho estar onde estou porque me faz vibrar e não porque preciso de sustentar o insustentável.

Por ironia deste meu destino que tem um humor muito particular, fui eleita para o lugar que ocupo hoje pela experiência adquirida nestes dez anos mais do que pelas minhas competências de um passado de “jovem executiva de sucesso.” Para inspirar o mercado de trabalho a ser também ele diferente, largando aos poucos a visão desfocada do propósito que é ter um emprego.

É possível ser uma “minimalista executiva de sucesso”? É a minha próxima proposta de investigação para os próximos tempos. Quem me acompanha?

Minimalismo

6 Responses to 360º pode não ser um círculo

  1. Marta Chan says:

    Que bom saber um pouco do teu trajecto. Eu estou na fase de pos viagens a tempo inteiro, estou a tentar perceber o meu cantinho no mundo profissional.

    Vou estar deste lado a acompanhar este novo ciclo =)

  2. Ana Coimbra Oliveira says:

    Boa viagem!

  3. Maria Elisabete de Pinho Frias Figueiredo says:

    Querida Sílvia,

    Fico muito contente com a tua escolha. Fico ainda mais contente por seres uma Mulher de Coragem.

    Fica aqui expresso todo o meu apoio.

    Beijinhos

    Elisabete

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